
Bastante utilizados nos países da Ásia durante o período mais caótico da pandemia do novo coronavírus naquela região, os túneis e as cabines de desinfecção encontram-se no meio de uma grande polêmica no Brasil, esquentando o debate em torno de sua efetividade contra a covid-19 e da possibilidade de intoxicação das pessoas.
Essa água já começou a levantar fervura, visto que na última quinta-feira (21) o Metrô de São Paulo e a CPTM colocaram quatro desses equipamentos em operação, visando proteger os passageiros da transmissão e do contágio de coronavírus nos trens. Outros 20 serão instalados nas próximas semanas.
Os túneis e as cabines de desinfecção estão se disseminando país afora. Além do governo do estado de São Paulo, prefeituras como a de São Sebastião (litoral norte paulista) e a da pequena Manoel Urbano, interior do Acre, investiram em equipamentos e em produtos químicos.
A iniciativa privada também está entrando nessa onda. Dias atrás, a Associação Comercial do Paraná apresentou ao governo local proposta para reabrir shoppings, galerias e congêneres de Curitiba. Entre as medidas, está a instalação de cabines de desinfecção na entrada desses estabelecimentos.
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O problema em torno dos túneis ganhou contornos interessantes após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) soltar uma nota técnica alertando sobre o uso desses equipamentos.
Ocorre que o órgão público, ao analisar estudos e artigos internacionais, não encontrou evidência científica, recomendações ou exemplos sobre a possível eficácia de desinfecção de pessoas com o uso dos túneis.
De acordo com a Anvisa, ficar na cabine por 20 ou 30 segundos para o procedimento não inativaria o vírus dentro do corpo humano.
Segundo a Nota Técnica 38, a autarquia aprofundou e embasou o posicionamento do Conselho Federal de Química (CFQ), alertando ainda que os produtos químicos utilizados – hipoclorito de sódio, dióxido de cloro, peróxido de hidrogênio, quaternários de amônio, ozônio, entre outros – são aplicados diretamente na pele e nas roupas, podendo causar danos à saúde.

Desativação
O posicionamento da Anvisa já começou a surtir efeito, pois a Vigilância Sanitária de Manaus mandou desativar seis cabines instaladas na capital do Amazonas, uma das regiões mais afetas pela covid-19.
Em Porto Velho (RO), a Secretaria de Estado da Segurança desistiu do túnel de desinfecção instalado no prédio da Central de Polícia.
No Espírito Santo, a empresa de limpeza urbana de Aracruz e o Hospital Roberto Silvares, em São Mateus, seguiram o mesmo caminho e retiraram os respectivos túneis dirigidos aos funcionários.
Ainda no estado capixaba, a prefeitura de Serra desativou os equipamentos que haviam sido instalados nos terminais rodoviários de Carapina, Laranjeiras e Jacaraípe.
“A qualidade da água utilizada e como ela será tratada e conservada, além do impacto que pode ter na saúde das pessoas, são outras grandes preocupações”, explica o químico e especialista em engenharia e saneamento ambiental Charles Domingues, presidente do Departamento Nacional de Tratamento de Águas da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava) e consultor na C Domingues Consultoria.
Apoiado em sua ampla experiência de 36 anos atuando com tratamento de águas para ar-condicionado, o especialista enfatiza que esta é uma questão de altíssima relevância para a sociedade.
“As pessoas passarão por esses túneis e serão aspergidos sobre elas produtos químicos, que para muitos não causam diferença, mas para indivíduos sensíveis podem desencadear uma série de problemas de saúde”, complementa.
Na mesma Nota Técnica 38, a Anvisa afirma que não foram encontradas recomendações de órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Agência de Medicamentos e Alimentos dos EUA (FDA) ou o Centro de Controle de Doenças dos EUA (CDC) sobre a desinfecção de pessoas no combate à covid-19, na modalidade de túneis ou câmaras. Igualmente, não existe recomendação da Agência Europeia de Substâncias e Misturas Químicas (ECHA) nesse mesmo sentido.
Já o sistema formado pelo Conselho Federal e Conselhos Estaduais de Química deixou claro que, “diante da falta de comprovações científicas sobre a eficácia dos sistemas de desinfecção mencionados e dos riscos à saúde que podem sujeitar a população, o Sistema CFQ/CRQs informa que está convocando os responsáveis técnicos pelas empresas químicas envolvidas para que prestem esclarecimentos sobre os estudos que desenvolveram antes de sancionar as soluções noticiadas”.
“Por ser químico, especialista em águas e conhecedor dos produtos químicos a serem utilizados, mas não conhecer os efeitos que eles podem causar aos seres humanos, recomendo cautela neste momento de pandemia, pois necessitamos de mais esclarecimentos, estudos e comprovações técnicas para validar o processo de desinfecção de pessoas em ambientes públicos”, argumenta Domingues.