
Quando saiu de sua Luanda em 1999, fugindo da guerra e buscando ampliar horizontes em sua vivência profissional – que hoje inclui construção naval e vários ramos da mecânica –, Fernando Joel Lopes, refrigerista há dez anos, não resistiu ao desabafo quando leu relatos na internet sobre agruras também vividas por trabalhadoras industriais no Brasil.
Certamente isso não diminui a gravidade da situação por aqui, mas Joel – como é mais conhecido –, frisa não ser esse um problema exclusivo de nações menos desenvolvidas, como alguns colegas podem pensar, equívoco já cometido por ele próprio anos atrás.
Mas logo a questão da desigualdade de gênero no mercado de trabalho se revelou bem mais grave do que ele imaginava em plenos países ibéricos, onde presenciou abusos e injustiças de vários tipos contra as “miúdas”, forma como se refere às meninas com seu forte sotaque de português lusitano.
Boa parte da realidade surpreendente encontrada nos vários setores em que trabalhou Joel atribui a fatores que extrapolam o campo cultural, referindo-se ao profissionalismo da mão de obra feminina. “A precisão e o rigor delas ao atuar em áreas técnicas acaba amedrontando grande parte dos homens”, avalia.
Segundo ele, isso ficou evidente em situações como a de uma soldadora que, na Espanha, após realizar a melhor solda, competindo com uma fila repleta de homens, acabou desclassificada do teste de admissão sob a desculpa esfarrapada de a oficina estar despreparada para a presença feminina.

Situação semelhante ele constatou entre operadoras de tratores para terraplenagem em renomado curso da área de construção ministrado em Portugal, onde muitas jovens davam show em suas manobras, e saíam de lá com grandes chances de chegar ao curso superior com brilhantismo semelhante.
Até mesmo em cargos mais elevados ele cansou de se contrariar com as coisas que via, como o caso de uma engenheira que era excelente mecânica de equipamentos pesados, mas que frequentemente sofria críticas sem motivo por parte dos colegas, simplesmente por acharem a função dela inapropriada para mulheres.
Somam-se a isso tudo restrições ligadas à possibilidade de gravidez, com os seus períodos característicos de afastamento, e assédios sexuais cometidos por superiores hierárquicos, geralmente acompanhados por perseguições implacáveis, até a pessoa pedir demissão, algo que ele antes pensava só acontecer em sua querida Angola.
- Instaladora de ar-condicionado demite funcionária vítima de assédio
- 6 verdades inconvenientes sobre a indústria de ar condicionado
- São Paulo a caminho da neutralidade climática
Após estudar em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, até as vésperas da oficialização da pandemia, Joel aproveitou para retornar ao seu país de origem, pouco antes que os voos internacionais se interrompessem.
Hoje, ele responde pela manutenção geral de todas as instalações envolvendo facilidades em um edifício luandense de 32 andares.
Quem o conhece, porém, sabe que ele está sempre próximo a seu embarque seguinte, em nome da obsessiva vontade de aprender, tendência beneficiada – em termos logísticos – pela dupla cidadania que faz de Portugal sua segunda nação.
Para as mulheres do HVAC-R e demais campos de atuação, o técnico igualmente não se deixa abater, mesmo com tudo que já presenciou, pois vê com otimismo as conquistas femininas no setor durante os últimos anos.
“Em nossa área está praticamente no fim aquela tradição de mulher ser professora ou secretária, tabu já derrubado por mérito delas próprias, hoje presentes em praticamente todas as profissões”, comemora Joel, lembrando que vários países são ou já foram comandados por elas, incluindo nações africanas.