
Embora ainda pareça longe de se concretizar, face à adesão até aqui tímida aos bitcoins (BTC) na indústria de refrigeração e ar condicionado (AVAC-R), há quem diga no setor que a tendência é a primeira criptomoeda do mundo passar da atual condição de investimento para a de mais uma forma de pagar contas.
A lista dos que acreditam piamente nisso vai desde experientes profissionais de instalação e manutenção a empresários do segmento, que já sentem em seus respectivos campos de atividade a desmaterialização do dinheiro há um bom tempo, frente ao sumiço das quantias em espécie na maioria esmagadora das transações no comércio.
A digitalização da economia, enfim, não é novidade. Porém, por mais que tudo isso tenha facilitado a vida de quem paga e recebe, não eliminou a fragilidade a que todas as moedas se submetem, frente ao ritmo de emissão variável definido pelos governos para controlar a inflação, por exemplo, algo que vincula o câmbio a momentos de escassez ou abundância do meio circulante, ao melhor estilo da lei de oferta e procura.
Sem falar no verdadeiro Big Brother financeiro estabelecido pelos governos de todo mundo, uma característica que em nosso país já tem uma nova geração a caminho, o Drex, uma versão digital do real, com estreia prevista para 2024.
Diferentemente das criptomoedas, cuja cotação é atrelada à oferta e à demanda, o que torna o ativo altamente volátil, o Drex terá o mesmo valor do real. Cada R$ 1 valerá 1 Drex, com a moeda eletrônica estatal sendo garantida pelo Banco Central, enquanto as criptomoedas não têm garantia de nenhuma autoridade monetária.
“A solução, anteriormente referida por Real Digital, propiciará um ambiente seguro e regulado para a geração de novos negócios e o acesso mais democrático aos benefícios da digitalização da economia a cidadãos e empreendedores”, destaca o órgão.
De qualquer forma, “nem o dólar escapa da desvalorização”, afirma o empresário Sergio De Leon, fundador da ZL Ferramentas, de São Leopoldo (RS). “Isso ocorre porque nenhuma moeda tem lastro, como chegou a ocorrer nos anos 1970, quando cada unidade ou fração da moeda americana estava ancorada a valor equivalente em ouro”, explica.
“Até os EUA, com todo o dólar que possui, acabaria quebrando, se tivesse de pagar todas as suas dívidas imediatamente”, acrescenta De Leon, lembrando ainda que uma conhecida agência de risco internacional rebaixou recentemente em um nível a classificação do país, “que mesmo assim continua das melhores”, reconhece.
Diferenças
Em países de economia instável como o nosso, De Leon aponta como mais sérios ainda os prejuízos de quem confiar cegamente em alguma moeda supostamente forte, qualquer que seja ela, realidade responsável por abrir o grande espaço já percebido no mundo das criptos.
Para ele, “as moedas fiduciárias se lastreiam apenas na suposta credibilidade que desfrutam, enquanto o BTC possui lastro matemático”, acrescenta o empreendedor gaúcho, apontando o fato de a criptomoeda ter emissão limitada, sem ser decidida aos ventos da economia, o que tende a torná-la mais valiosa, à medida que escasseie.
Por fim, como o seu valor unitário é muito alto (cerca de US$ 30 mil no momento), as frações de BTC, conhecidas como satoshis, permitem que a criptomoeda seja adotada como meio de pagamento no dia a dia.
Amante confesso da tecnologia, amor que sempre cultivou no trabalho e hoje na sua empreiteira, a JRR Instalações, Wilson Roberto Rebechi Júnior, um técnico de Campinas (SP) especializado em instalação e manutenção de ar-condicionado e câmaras frigoríficas, já esfrega as mãos com um novo ciclo de alta previsto, a partir do próximo ano, para o BTC.
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Depois de uma temporada de baixa, estudos mostram, segundo ele, que até 2026 um BTC deve chegar a R$ 350 mil, dado mais impressionante ainda quando se pensa que, há menos de 15 anos, sua cotação era de centavos de dólar.
O profissional aderiu à criptomoeda em 2019, na qualidade de investidor, e exibe alguns números para justificar seu otimismo, reforçado pelo fato de poder utilizá-lo em qualquer lugar do mundo, até mesmo a partir de um simples pendrive, com segurança e privacidade imbatíveis, ante ao uso de cédulas e outros meios de pagamento, por exemplo.
Mesmo com altos e baixos, historicamente balizados por períodos de quatro anos, Wilson concorda com De Leon sobre a vantagem do BTC também em virtude da tendência de alta ser apenas uma questão de tempo, deixando ao investidor a missão de estudar bastante os melhores momentos de compra.
Em suas redes sociais, ele dá dicas assim aos colegas que pretendam aproveitar as boas oportunidades nas quais está convicto haver naquilo que define como “a moeda de ouro do mundo, que vai dominar o mercado financeiro”.

Independência
Do jeito que as coisas estão andando rápido nesse setor, espera-se para breve a expansão do P2P (ponto a ponto), conceito que no âmbito das criptomoedas representa a possibilidade de negócios diretos em bitcoin, sem a necessidade de intermediários confiáveis para converter as movimentações do gênero em real, dólar ou qualquer outra moeda.
O refrigerista gaúcho radicado em Porto Velho (RO) Magnus Reimann está entre os que esperam esse momento, e justifica: “Eu acredito nos recebimentos com BTC, mas ainda não encontro quem queira pagar dessa forma”.
Especialista em ar condicionado e também em instalações elétricas residenciais, reparo de placas e equipamentos eletrônicos, desde 2016 ele lida com a criptomoeda mais difundida do planeta, mas se confessa decepcionado com os ganhos atuais, o que o tem levado a se desfazer de uma parte da carteira até aqui acumulada.
Por isso, ele acha fundamental acompanhar bem de perto os movimentos desse mercado para não perder dinheiro, algo que um trader tem melhores condições de fazer, ao contrário de quem desenvolva outras atividades simultaneamente. “Para pessoas assim, os resultados surgem mais devagar”, reconhece.
Independentemente disso, Magnus – como é mais conhecido pelos seus colegas e clientes – não deixa de recomendar que se tenha sempre uma certa quantidade de BTC na manga, pois o máximo de queda na área chegaria até zero, enquanto o nível de alta desconhece limites.
Ficar atento às tendências, no entanto, não é o único cuidado a tomar quando alguém resolve investir em criptomoedas.
De Leon, por exemplo, adverte sobre a importância de escolher bem qual delas usar, já que existem as chamadas shitcoins, com valor baixo ou nulo, frutos da mera manipulação de especuladores.
O mesmo se aplica no caso de uma corretora a ser contratada para converter criptomoedas em moeda convencional.
“É preciso checar a reputação da empresa”, adverte Wilson Roberto, para quem a necessidade dessa intermediação tem tudo para diminuir, à medida que esse mercado cresça, possibilitando com isso que pessoas e empresas troquem rotineiramente seus bitcoins entre si.
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