
Assumir a presidência executiva de uma entidade como a Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento, em um setor reconhecido pelas mudanças técnicas e regulatórias constantes, exige mais do que experiência — demanda capacidade de articulação e visão de futuro. É com esse pano de fundo que o engenheiro Paulo Macedo iniciou, em março, sua gestão, ciente do papel estratégico que a Abrava desempenha na organização e no avanço do AVAC-R.
Pós-graduado pela FGV e com MBA pelo Ibmec, o executivo contratado para o cargo reúne uma trajetória consistente, com passagens por empresas como DuPont, Alcoa e Grupo Industrial João Santos. Essa bagagem, aliada a uma leitura estratégica do setor, sustenta o desafio de reposicionar a Abrava como uma entidade ainda mais relevante, conectada às demandas atuais e preparada para antecipar tendências.
Na entrevista a seguir, Macedo compartilha suas prioridades à frente da organização patronal. Entre elas, reforçar o posicionamento da Associação como um hub de informação qualificada, ampliar o diálogo com empresas do setor e consolidar sua atuação como representante legítima dos interesses da cadeia produtiva. Ao mesmo tempo, ele aponta a necessidade de expandir o quadro associativo — hoje em cerca de 400 empresas — e fortalecer a entrega de valor aos membros, em um ambiente cada vez mais competitivo.
Sua carreira está consolidada em empresas globais como DuPont e Alcoa. Como você se define?
Sou um executivo formado em uma escola de valores sólidos. Trabalhei em empresas nacionais e internacionais. Acredito que há similaridades, mas também diferenças culturais que variam de empresa para empresa. Entrei na DuPont em 1987 como estagiário de engenharia e fui efetivado como engenheiro. Somada à experiência técnica, tive uma formação profissional, pautada na ética e no cuidado com segurança e procedimentos. Naquela época, a empresa já se preocupava com valores e compliance. Uma das diretrizes era a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança por todos os funcionários nos veículos da empresa, apesar de não ser obrigatório por lei. Acredito que, apesar de todas as mudanças na empresa, a essência permanece até hoje.
Atuei por um ano e meio na empresa canadense DiscAmeric com um projeto de introdução de marca, abertura de mercado e, por último, participação na construção de uma fábrica de CDs. Foi um aprendizado muito rico sobre o que fazer e como avançar um passo após o outro, e sobre o que não fazer para implementar uma empresa, pois a forma de atuar no Brasil era totalmente diferente da praticada no Canadá.
Depois fui para a Alcoa, um mundo muito diferente do que eu fazia antes. De uma atuação business to business, passei a trabalhar na área de consumo, uma experiência totalmente nova para mim. Esses desafios me impulsionaram a aprender mais todos os dias. Aprendi a versatilidade do mercado de consumo e a importância do relacionamento em todos os níveis. Todos contribuem para o sucesso do negócio, devendo ser considerada a combinação da experiência dos mais velhos com a energia dos jovens.
E, por último, trabalhei por 17 anos no Grupo João Santos. Por se tratar de uma estrutura em grupo, com administração direta dos acionistas, o aprendizado foi intenso, tanto pela incorporação de novas estratégias de gestão quanto pela necessidade de rever e desconstruir práticas e conceitos até então consolidados. Quando você trabalha diretamente com os donos, a cultura administrativa tende a ser diferente. Foi um período bastante interessante trabalhar em uma empresa familiar, com base no Nordeste.
O que o levou a aceitar essa posição na Abrava?
O que me atraiu foi o desafio de atuar em algo que não é “palpável”, como um produto, mas sim o bem-estar de um setor. O desafio é interno e externo! Aceitei porque acredito que posso contribuir com a Associação ao ser o suporte interno que ajude os objetivos das empresas associadas a serem atendidos por nossa estrutura de forma rápida e eficiente. No campo externo, pretendo contribuir com o que as empresas precisam, seja em relações governamentais, tributárias ou na capacitação do setor.
Acredito que minhas experiências profissionais e pessoais podem ajudar muito na minha posição aqui na Abrava, tendo que atuar diariamente com profissionais que possuem visões diferentes. Definir próximos passos de operação e investimentos que devem ser feitos para melhorias, conduzir análises de necessidades por áreas, supervisionar equipes, entre diversas tarefas, farão parte das minhas atribuições, sempre em linha com o planejamento estratégico da Abrava.
Como suas experiências profissionais podem influenciar a liderança na Abrava?
Entendo que a liderança é pautada pela organização de processos. Venho de culturas corporativas que prezam pela organização, pelo cumprimento do compliance e pela eficiência. Na Abrava, pretendo usar essa visão executiva para identificar gargalos, ouvir os diretores voluntários e os presidentes de departamentos nacionais (DNs), comitês e grupos de trabalho para transformar o planejamento estratégico em ações efetivas.
Quais são suas prioridades?
Minha prioridade imediata será entender a estrutura e as necessidades. Estou na fase de escuta ativa com a diretoria e os DNs para ver como a presidência pode facilitar os trabalhos que já foram planejados. O foco é fazer com que as metas do conselho aconteçam de forma mais fluida.
Qual seu plano de ação em curto, médio e longo prazo?
Cheguei à Abrava durante o processo de renovação que começou no ano passado com a nova diretoria e com 70% do conselho renovado. Por meio desse novo corpo diretivo, foi elaborado um plano estratégico que destaca todas as diretrizes para o triênio 2025/2028, que pretendo seguir. De forma resumida:
Curto prazo: entender a estrutura, identificar gargalos e otimizar processos internos com mais automação e redefinição de funções. Médio prazo: aumentar o número de associados, a partir da maior proximidade com as empresas associadas, entender por que alguns são ativos e outros não e resgatar aqueles que se desligaram. Buscar novas empresas. Longo prazo: contribuir com o crescimento do setor AVAC-R.
O objetivo final é que, com o apoio da Associação, as empresas aumentem seu faturamento e sua relevância.
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De que maneira sua formação e experiência executiva contribuem para enfrentar os desafios externos atuais?
A engenharia me dá o embasamento técnico e o MBA em administração me permite traduzir o técnico para o estratégico. Essa visão é fundamental para lidar com temas diversos que fazem parte do universo AVAC-R, como a reforma tributária, as normas técnicas e a eficiência energética, que interferem diretamente na competitividade das empresas.
O mercado brasileiro de AVAC-R ainda tem espaço significativo para expansão? Em quais segmentos o potencial é maior?
Sim. Esse potencial está diretamente ligado ao desenvolvimento da sociedade e às suas necessidades, que impactam o crescimento das empresas do setor e tendem a ampliar a busca por novas tecnologias, colaboradores qualificados e um mercado sustentável em todos os sentidos. A expansão se dá por meio da busca e do suporte em áreas nas quais o empresário tem dificuldade de navegar sozinho.
Como a Abrava pode apoiar as empresas associadas para se tornarem mais competitivas em um mercado cada vez mais tecnológico e sustentável?
Nosso apoio se materializa no papel de porta-voz oficial do setor. Sabemos que cada um dos segmentos tem necessidades distintas, sejam eles fabricantes, projetistas, comerciantes, instaladores ou outros. O mapeamento contínuo e a atuação focada no plano estratégico nos dão o caminho para seguirmos contribuindo com o crescimento dos segmentos representados.
Como a Abrava pretende se aproximar ainda mais das empresas e dos profissionais do setor, de modo a ampliar a representatividade?
Pretendemos fazer com que o associado se sinta mais acolhido e informado. Vamos replicar o que funciona com os associados mais ativos para toda a base. Além disso, temos um processo de captação de novos membros, mostrando os benefícios reais de pertencer à Associação, e um trabalho de resgate de ex-associados para apresentar o novo direcionamento da entidade.
Qual é o papel da entidade no diálogo com governo, indústria e sociedade sobre temas estratégicos para o setor?
O papel da Abrava é ser o canal de comunicação técnico e institucional. Precisamos trabalhar junto ao governo, aos ministérios (como Educação; Meio Ambiente; Minas e Energia; Indústria e Comércio; e Saúde) e à sociedade para que temas como a qualidade do ar e a descarbonização sejam tratados como prioridades para a qualidade de vida da população.
Temos, na Abrava, diversas diretorias que têm atuado diretamente junto a órgãos governamentais e que devem trazer resultados de impacto para o setor AVAC-R, como as diretorias de Meio Ambiente e de Relações Governamentais, os comitês internos de Kigali e da ABNT, entre outras ações que estão abrindo diversas frentes de atuação em prol não apenas dos setores representados, mas de toda a sociedade.
Quando falamos em qualificação para o setor AVAC-R, o que vem à cabeça?
Visamos a qualificação da mão de obra. O Centro de Treinamento da Abrava tem uma extensa agenda de cursos de curta e longa duração, presenciais e online. A qualificação, para nós, é sinônimo de certificação, registro e qualidade de serviço. Queremos garantir que o profissional que presta o serviço seja registrado e capacitado, eliminando riscos para os equipamentos e para as pessoas.
Temos parcerias com organizações como Senai, Smacna, Fapro, FEI, entre outras, que estão juntas nesse desafio de formar mão de obra em um mercado que tem apresentado crescimento acentuado, acima da média dos últimos anos.
Qual a importância das parcerias para a Abrava?
Eu diria que as parcerias são fundamentais para quaisquer relacionamentos, em especial para a Abrava, porque precisamos de pares para caminharmos juntos aos objetivos comuns.
Então, mantendo parcerias com diversos players — sejam escolas, formadores de opinião, faculdades, sindicatos, associações ou federações —, nosso objetivo é facilitar o acesso e aumentar a assertividade das ações conjuntas. Temos, na Abrava, uma lista de mais de 50 entidades parceiras entre nacionais e internacionais.
Qual mensagem você gostaria de deixar para as empresas e profissionais do setor, tendo como base as três bandeiras da gestão 360º (Qualidade do Ar, Descarbonização e Segurança Alimentar)?
Minha mensagem é que devemos manter a união e a busca contínua por conhecimento. O mercado está mudando, temos uma reforma tributária, novos desafios e novas tecnologias chegando. Usem a estrutura da Abrava para se sentirem suportados.
Estamos trabalhando para que a Associação seja a ferramenta para que todo negócio do setor possa crescer, apoiando a participação de cada empresa nessa expansão de forma sustentável, ética e com impacto positivo na vida do planeta.
De forma resumida, as três bandeiras dessa gestão são Qualidade do Ar, Descarbonização e Segurança Alimentar.
A primeira é essencial para a saúde e o desempenho humano em ambientes como hospitais, escolas, empresas, casas e instituições. É um trabalho de conscientização de longo prazo.
A Descarbonização encontra-se nesse patamar porque o planeta exige aparelhos que consumam menos energia e sistemas que permitam um maior controle das emissões. É um “guarda-chuva” que permeia todos os nossos setores.
Por fim, a Segurança Alimentar é de fundamental importância para a gestão integrada do sistema alimentar, de forma a garantir que a tecnologia de refrigeração cumpra seu papel social e econômico.
Qual legado espera que a Abrava deixe ao final da gestão 2025-2028?
Estrategicamente falando, espero deixar uma Abrava com processos mais automatizados, funções bem definidas e uma estrutura que flua melhor. O legado será uma Associação que cresceu junto com o setor, tornando-se indispensável para que as empresas associadas tenham mais faturamento, melhores condições técnicas e maior representatividade no Brasil.
Quero ainda destacar as três bandeiras da entidade. A primeira é avançar de forma mais concreta na qualidade do ar, especialmente em escolas. Nosso grande objetivo é que crianças possam estudar em ambientes com ar mais saudável. Isso também envolve estimular empresas e instituições a se preocuparem cada vez mais com esse tema, sempre com foco em resultados objetivos voltados à saúde das pessoas.
A segunda frente é ampliar a participação e a relevância da refrigeração na segurança alimentar. A Abrava nasceu a partir de empresas de ar-condicionado, que têm um papel fundamental, mas a refrigeração também é essencial no nosso dia a dia, especialmente quando falamos de alimentação. Melhorar a cadeia de refrigeração significa reduzir desperdícios, garantir alimentos de melhor qualidade e mais segurança para todos. Para isso, é importante trabalhar junto às empresas, aos usuários e ao poder público, buscando normas mais efetivas que fortaleçam toda a cadeia produtiva.
Por fim, há a questão da descarbonização, que está diretamente ligada à eficiência energética e ao uso responsável de tecnologias. Isso envolve utilizar produtos que respeitem o meio ambiente, fazer o descarte correto dos equipamentos e contribuir para um setor cada vez mais sustentável. Em um mundo com temperaturas cada vez mais altas, a climatização se torna essencial não apenas para o conforto térmico, mas também para a qualidade do ar. Se fizermos isso com eficiência energética e responsabilidade ambiental, nosso setor pode contribuir de forma concreta para um planeta mais saudável.
E, por fim, quem é o Paulo?
Sou uma pessoa de hábitos simples, tranquila, casado, pai de um casal de filhos e avô de uma linda menina de seis anos. Sou ambicioso, mas não no sentido de coisas, e sim de cumprir objetivos. Sou rígido, porque às vezes é preciso, quando há objetivos traçados para serem cumpridos.
Sou muito ligado à família e prezo pela qualidade de vida dentro e fora de casa. Prezo por qualquer ação que envolva cuidado e responsabilidade com as questões familiares, trabalhistas, sociais e ambientais.









