A primeira comemoração do Dia das Mulheres aconteceu nos Estados Unidos ainda na primeira década dos anos 1900. No entanto, a celebração caiu no esquecimento e foi, posteriormente, recuperada pelo movimento feminista na década de 1960. Em 1975, comemorou-se o Ano Internacional das Mulheres e, dois anos depois, o 8 de março foi oficialmente adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional da Mulher.

Apesar de um século de transformações nas dinâmicas sociais globais, o cotidiano das trabalhadoras contemporâneas ainda é permeado pelo estereótipo de gênero, que está enraizado nos pilares da construção do mundo moderno.

Ainda hoje, as características atribuídas aos homens, ou seja, o estereótipo masculino, se encaixam muito mais no perfil do bom profissional do que aquelas que compõem o estereótipo feminino. Assim como acontece com o perfil desse bom profissional, muitas carreiras e áreas de atuação, como ciências e engenharias, são lidas como essencialmente masculinas.

Levando em consideração as questões de desigualdade que permeiam todas as esferas da sociedade atual, isso não deve causar espanto. Contudo, este problema começa mais cedo do que se pode imaginar.

Pesquisadores americanos mostraram, por meio de um estudo com 400 crianças publicado na revista científica Science em janeiro deste ano, que os estereótipos de gênero sobre habilidades intelectuais surgem cedo e influenciam os interesses das crianças.

De acordo com testes realizados, meninas a partir dos seis anos se tornam menos propensas a associar o próprio gênero à inteligência. Além disso, nesta idade elas também passam a buscar jogos para “crianças muito, muito esforçadas”, em vez daqueles para “crianças muito, muito inteligentes”. Até os cinco anos as repostas eram similares para ambos os sexos.

Nesse contexto, um verbo tem ganhado cada vez mais notoriedade: empoderar. Atrelado ao feminino, esse destaque frente à necessidade e urgência de fortalecer meninas e mulheres implica diretamente a conquista de espaço e voz. Apesar disso, o processo é gradual, envolve diferentes fatores e não traz resultados da noite para o dia.

HVAC-R empoderado

Em 1998, Débora Catarina Frias foi contratada como menor aprendiz na York International. Ela entregava correspondências e ficava de olho nas oportunidades. Anos mais tarde, em 2005, quando a companhia foi comprada pela Johnson Controls, Débora já era vendedora e conhecida no mercado da linha de expansão direta. Convidada para o departamento de middle marketing dois anos depois, conquistou seu espaço mesmo sem ser engenheira.

Débora Frias, executiva de contas da Johnson Controls/Hitachi do Brasil, é a única mulher em seu departamento

Atualmente, a profissional bacharelada em administração e pós-graduada em gestão empresarial voltou a ser estudante e cursa engenharia. Além disso, é mãe solo. No departamento em que atua, apesar de contar com braços direitos femininos para executar seu ofício, Débora, executiva de contas da Johnson Controls/Hitachi do Brasil, ainda é a única mulher.

“Em alguns processos que são muito difíceis até ouço ‘Tem certeza que vai tentar?’ ou ‘Não é melhor desistir?’ e sempre respondo ‘O não eu já tenho, vou buscar o sim’. Eu venci, penso nisso todos os dias. Cada dia que passa, eu subo um degrau e tenho uma experiência nova para contar”, comenta.

Cristiane Kelly Amorim, moradora de Codó, quinto município mais populoso do Maranhão – ainda assim com menos de 100 mil habitantes –, faz montagem e desmontagem completa de ar-condicionado. O ofício ela aprendeu com o marido e, juntos, atuam como autônomos em uma cidade com pouca estrutura para refrigeração.

Refrigerista no interior do Maranhão, Cristiane Kelly Amorim não se deixa abater pelo machismo em sua cidade

Para Cristiane, o maior desafio é o preconceito. Algumas vezes aconteceu de o cliente pedir para Rodrigo, seu marido, não a levar junto para fazer um serviço. Mas ela não se abala: “Pouco me importo com as opiniões dos outros. Estou feliz com o que faço, me sinto animada e gratificada”, esclarece.

Embora esteja geograficamente distante de um curso de especialização na área, ela quer muito se profissionalizar. O plano é montar uma assistência técnica autorizada na região. “O que eu tenho a dizer para as mulheres que desejam entrar nesse mercado é que procurem se profissionalizar e não liguem para o que vão falar no começo. Vá o mais longe possível e com o tempo vão lhe admirar”.

A jornada da gerente de marketing Patrícia Corrêa na companhia global Ingersoll Rand começou no cargo de engenheira de aplicações para a América Latina. Formada em engenharia mecânica, obteve ao longo da carreira uma experiência versátil e conheceu os diferentes papéis que um engenheiro pode exercer em uma organização.

Em 2015, fez parte de um programa de liderança exclusivo para mulheres com duração de três meses, envolvendo coaching e mentoring. Assim como Patrícia, a maioria das vinte participantes de alto potencial também foi promovida.

Graduada em engenharia mecânica, Patrícia Corrêa lidera o Women Empowerment Network da Ingersoll Rand na América Latina

Líder do projeto Women Empowerment Network da companhia na América Latina, a profissional acredita que questões como preconceito e discriminação, capacidade de liderança, conflito entre trabalho e família e a questão da maternidade ainda geram estresse e angústia em muitas mulheres.

Para Patrícia, no ambiente profissional, a mulher frequentemente é estereotipada como um ser guiado por seus sentimentos e intuições. E, por isso, para ter ascensão no emprego, tem de assumir uma postura masculina, mais agressiva e racional, mas sem deixar de ser dócil e delicada.

“Para superar todas essas questões, é fundamental que as mulheres apoiem umas as outras para que ocorra, de fato, uma transformação nas relações sociais e econômicas”, enfatiza a executiva.


 

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